BIOECONOMIA: COMO TRANSFORMAR AS VOCAÇÕES DO BRASIL EM REALIDADE?

O Fórum & Prêmio Brasil Bioeconomia 2021, realizado pela Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI), aconteceu no dia 09 de dezembro, em formato on-line, reunindo convidados importantes em torno do tema “Bioeconomia: da vocação à realidade”.

Com patrocínio das empresas Amyris, BASF, Braskem, DSM, GFI Brasil, Novozymes e Raízen, o evento teve coordenação do Presidente Executivo da ABBI, Thiago Falda, e mediação do jornalista Luís Arthur Nogueira.

O encontro foi dividido em dois painéis, com pautas estratégicas para o desenvolvimento da bioeconomia avançada no Brasil: A Bioeconomia e a Descarbonização e A Bioeconomia e a Atração de Investimentos no Brasil. Além disso, contou com uma palestra subjacente à temática principal:  “Amazônia 4.0. e o Brasil do futuro: colocando em prática os potenciais da bioeconomia”. Durante o Fórum foram disponibilizadas enquetes para votação do público, propiciando maior interatividade com as pessoas que acompanharam o evento remotamente.


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ema pede atenção  

De acordo com previsões do Fórum Econômico Mundial, a população econômica mundial alcançará 9 bilhões de habitantes, em 2050, sendo que mais de 70% das pessoas de países desenvolvidos viverão em áreas urbanas, com expectativa de vida ultrapassando os 90 anos.  

Este cenário demandará aumento no uso de recursos naturais, energéticos, uso da terra, entre outros e, como consequência, resultará em mudanças drásticas no meio ambiente. Daí a necessidade de uma transformação do paradigma econômico atual para uma economia de baixo carbono, a começar pela transição da matriz energética de um modelo baseado em combustíveis fósseis para um modelo de base renovável.         

“O Brasil possui diferenciais importantes como biodiversidade do mundo, produção de biomassa barata, uma experiência muito grande na área de biocombustíveis, de biorrenováveis, o que faz com que o país tenha as vocações para o desenvolvimento da bioeconomia”, explicou Thiago Falda.


Vocação brasileira para Bioeconomia e as políticas públicas
         

Na abertura do Fórum, o Secretário de Pesquisa e Formação Científica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Marcelo Morales, fez coro ao relacionar a aptidão nacional para a bioeconomia com a biodiversidade, e ainda incluiu o fato de o país possuir uma agricultura forte e ciência e tecnologia de relevância global nos campos das ciências biológicas, agrária e da saúde, como parte essenciais para o desenvolvimento de uma bioeconomia sustentável e circular.               

“Além disso, somos os pioneiros na produção, uso e regulação dos biocombustíveis. Devemos nos inspirar nesse exemplo e continuar a avançar em temas como bioenergia, químicos de fontes renováveis, fármacos, biomateriais, bioinsumos e outros tantos produtos e serviços da biodiversidade”, enfatizou. “Para que nos tornemos, de fato, o Brasil da bioeconomia, precisamos coordenar os esforços entre o governo, a academia, as empresas e a sociedade civil. Com o planejamento correto e disponibilidade de recursos, poderemos nos consolidar como o país da bioeconomia”, finalizou Marcelo Morales.         

Na sequência, o deputado federal Paulo Ganime (NOVO-RJ), Presidente da Frente Parlamentar da Bioeconomia, afirmou que o lançamento da Frente Parlamentar pela Inovação, em 2019, aconteceu em razão da relevância do tema. “A Bioinovação é o futuro do Brasil, mas também o futuro da ciência. Um tema que envolve desenvolvimento econômico com responsabilidade e sustentabilidade, respeitando o ecossistema, e incentivando a diversidade e a biodiversidade.”

O deputado abordou o trabalho do Congresso Nacional a favor de melhorias das regulamentações jurídicas voltadas para a bioeconomia, tanto para os aspectos técnicos como também para os empreendedores. “Apesar da bioeconomia não ser algo novo, agora que o mundo está indo por este caminho. Nosso papel é garantir que o Brasil venha a ser um líder”, pontuou Paulo Ganime.  


Potencialidade real da Floresta Amazônica       

Na condição de palestrante do evento, Ismael Nobre, Diretor Executivo do Instituto Amazônia 4.0, apresentou o tema “Amazônia 4.0. e o Brasil do futuro: colocando em prática os potenciais da bioeconomia”. Nobre explicou as motivações da criação do Instituto, apoiadas na crise climática e nas potencialidades da região amazônica para preservar o bioma dentro de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável para a floresta, populações indígenas e comunidades locais.  

Assim foi criado o Laboratório Criativo da Amazônia – laboratórios móveis montados dentro da floresta que funcionam como uma biofábrica demonstrativa da agregação de valor completa, com processos-chave para qualidade e originalidade reengenheirados com recursos da Indústria 4.0, chamada de manufatura inteligente (ou Smart Manufacturing).

Para começar a demonstrar, os pesquisadores utilizaram a cadeia do cacau e do cupuaçu, como matérias-primas num processo de fabricação de chocolate, que vai desde a fruta até a barra. “A tecnologia do processo foi desenvolvida por engenheiros e técnicos na base do projeto, em São José dos Campos (SP), mas a construção da solução aconteceu em parceria com a comunidade local. Ao lidar com os produtos das florestas, as comunidades mantêm a floresta viva, a biodiversidade”, sublinha Ismael Nobre.              

Sobre transformar a floresta em oportunidades, Thiago Falda diz que o projeto Amazônia 4.0 apresenta justamente um dos pontos de atenção da ABBI para a bioeconomia, que é agregar valor por meio da inovação. “Muito bom ver a aplicação objetiva da inovação tecnológica para trazer esse diferencial para a vida das populações amazônicas e gerar uma via de conservação para a Amazônia, a partir de desenvolvimento econômico”.


Bioeconomia e a Descarbonização
 

Intitulado “Bioeconomia e a Descarbonização”, o primeiro painel contou com a participação de André Valente, Gerente de Sustentabilidade da Raízen; Julio Natalense, Gerente Executivo de Iniciativas de Carbono da Suzano; Maurício Adade, Presidente América Latina da DSM e Presidente do Conselho Diretor da ABBI e Viviane Pereira de Souza, Diretora de Consumer Biosolutions da Novozymes para a América Latina.

Para iniciar o debate, o mediador pediu a exposição do ponto de vista de cada participante sobre a COP26 e as principais lições extraídas na conferência. Em linhas gerais, foi destacada a importância da participação das comunidades tradicionais e indígenas, na discussão sobre a conservação da floresta e a biodiversidade; a participação ativa da iniciativa privada; além dos acordos firmados para o fim do desmatamento, a recuperação do solo e a redução das emissões de metano.

Dentro da temática proposta pelo painel, André Valente comentou que a Raízen é muito ativa na exportação de biocombustível e competitiva no mercado de crédito de carbono. “Faz algum tempo, a empresa possui como estratégia um portifólio de soluções de sustentabilidade e renováveis. A partir da cana-de-açúcar produzimos o etanol de 1ª e 2ª geração, com o bagaço do processo geramos bioeletricidade, biogás e biometano, além do pallet de biomassa que pode substituir o carvão. Há muito espaço ainda para influenciar as políticas públicas, já que esses outros mercados não têm a mesma política do mercado de carbono que o etanol,” explicou.  

O mercado de carbono traz uma oportunidade para todo o setor florestal, de acordo com Julio Natalense. “No contexto da bioeconomia, nós estamos numa ponta onde várias empresas querem chegar em 2050. Mesmo com o ciclo de colheita da madeira, a Suzano sequestra mais do que emite. Em 2020, sequestramos 15 milhões de toneladas de CO2 a mais do que foi emitido. A meta para 2025 é retirar da atmosfera 40 milhões de toneladas de CO2, e uma parte formatar dentro de um projeto de carbono e transformá-lo num instrumento que possa ser comercializado”. 

Em relação à contribuição das biosoluções e biotecnologias para o debate, Viviane Pereira de Souza acredita que a transformação aconteça também por meio de pessoas. “O consumidor exigindo melhores tecnologias faz com que todo o setor se movimente, investindo em inovações e tecnologias que realmente impactem nessa transformação”, diz. “Hoje em dia, a biotecnologia viabiliza muito a não emissão de carbono. Os produtos de consumo massivo, por exemplo, que fazem parte do nosso cotidiano e nós nem imaginamos o impacto que têm, alguns mais e outros menos, já fazem uso dessas biosoluções”, reforça a diretora da Novozymes.

Fechando o primeiro ciclo de debates, Maurício Adade, que também é Presidente do Conselho Diretor da ABBI, fez questão de sublinhar a responsabilidade da inciativa privada no processo de transformação. “Temos a responsabilidade de desenvolver essa tecnologia e fazer com que a nossa tecnologia seja utilizada. Neste sentido, temos orgulho de o Brasil ser o primeiro país do mundo a aprovar uma tecnologia chamada Boaver”. Ele conta que o produto desenvolvido pela DSM, durante mais de 10 anos, se administrado em gado de corte e de leite, tem a capacidade de reduzir 30% da emissão de gás metano, pelo menos.


A Bioeconomia e a Atração de Investimentos no Brasil

Participaram do segundo painel, intitulado “A Bioeconomia e a Atração de Investimentos no Brasil”, Gustavo Guadagnini, Managing Director do The Good Food Institute Brasil; Gustavo Sergi, Diretor de Químicos Renováveis e Especialidades da Braskem; Kelly Seligman, Gerente de Assuntos Científicos e Regulatórios da Amyris para a América Latina e Brasil, e Raphael Leibel, Gerente de Inovação da BRF. 

A enquete interativa serviu de base para o debate trazendo a seguinte questão: “Qual o maior entrave para atração de investimentos no Brasil?”. Entre as opções listadas, burocracia excessiva, insegurança jurídica, sistema tributário complexo, falta de financiamento e mão de obra sem qualificação.

Na opinião de Gustavo Guadagnini, que trabalha prioritariamente com proteínas alternativas no The Good Food Institute, o principal entrave para a bioeconomia nessa categoria é a falta de investimento em desenvolvimento de ciência e tecnologia, e no desenvolvimento de ingredientes brasileiros. “Há muito a ser trabalhado ainda, quando eu penso na nossa biodiversidade, em ingredientes com base em produtos feitos com plantas de todos os biomas que temos no Brasil. Mais investimento destravaria nossa indústria”, declara.

Gustavo Sergi também considera a falta de investimentos uma das principais dificuldades. Ele diferencia em dois os tipos de investimentos: nos ativos já existentes e nas condições de capacidade, e em inovação. “O financiamento de agências implementadoras e de múltiplos stakeholders que estejam dispostos a correr riscos, quando vai chegando mais perto da escala comercial são os principais desafios. Além da burocracia, que faz com que o tempo de implementação de investimento seja longo”, afirma o representante da Braskem.

Exceto a falta de mão-de-obra qualificada, já que para Kelly Seligman há excelentes Universidades e Centros de Pesquisa no país, todas as demais opções entraram para a lista da gerente da Amyris. “O ambiente regulatório por vezes não é propício ao desenvolvimento da Bioinovação e da bioeconomia. Se destravassem essas questões, certamente o Brasil estaria numa posição diferenciada e de protagonismo”, acredita.

Para Raphael Leibel, as questões burocráticas são um elemento crítico nesse debate, mas aspectos relacionados à infraestrutura ganharam destaque nas pontuações do gerente da BRF, que trouxe como referência a palestra de Ismael Nobre – Amazônia 4.0.  “Se tivesse uma melhora no ambiente regulatório, poderíamos ter o desenvolvimento de outras regiões, que não apenas no eixo Sul – Sudeste do Brasil. A logística das pessoas, locomoção, escoamento de matéria-prima, matriz energética da localidade, os modais de transporte, tudo isso acaba gerando repulsa para investimentos, porque são desafios grandes e que as companhias, muitas vezes, não conseguem resolver por si”, resume.       


Brasil possui diferenciais únicos em Bioinovação

Em concordância, os painelistas dos dois painéis manifestaram a necessidade de uma estratégia de longo prazo, considerando os diferenciais do país como: agricultura sustentável, biomassa abundante e de baixo valor, larga experiência em biotecnologia na produção de etanol, além da maior biodiversidade do planeta. Isso tudo aliado ao desafio do setor de inovação em compartilhamento de riscos e estruturação de garantias, já que os negócios, ainda, estão muito voltados para a indústria tradicional.

Após o debate houve a entrega do Prêmio Brasil Bioeconomia 2021, que reconhece pesquisadores, empreendedores e organizações cujas soluções para as mais importantes questões do Brasil e do mundo envolvem a inovação como meio para reforçar um pacto saudável entre a natureza e a sociedade. Conheça os vencedores.

Assista ao Fórum & Prêmio Brasil Bioeconomia 2021 no canal da ABBI no YouTube e reveja os melhores momentos. Basta clicar aqui.

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