A economia circular é capaz de gerar pesquisa, inovação e desenvolvimento, e mudar a cor do alerta sobre o clima

A economia linear, baseada em extrair-produzir-desperdiçar, está ficando no passado assim como a linha fixa de telefone. Para a nova indústria, o conceito de circularidade regenerativa, que conecta os setores e cria valores agregados, equivale ao aparelho celular dentro da lógica deste modelo de negócio. A transição entre ambos, contudo, assim como qualquer grande quebra de paradigma industrial, depende muito de políticas públicas que induzam a criação de um ambiente favorável e estimulante ao desenvolvimento dessa transição.

Quando o assunto converge para a contribuição do poder público, o ambiente regulatório aparece como prioritário para empresas como a Dow Brasil e a BASF. De acordo com o Gerente Sênior de Sustentabilidade da BASF América do Sul e Diretor Presidente da Fundação Espaço ECO, Rodolfo Viana, “uma regulamentação bem-feita e uniforme entre os entes federativos pode ajudar as empresas a cumprirem suas metas”. Para ele, a aplicação da lei é importante com a finalidade de garantir que os recursos necessários sejam direcionados para a estruturação da cadeia, já que hoje no Brasil há uma carência de infraestrutura de coleta seletiva e unidades de triagem.

A Diretora de Relações Internacionais da Dow Brasil, Mariana Orsini, defende que “o diálogo baseado em dados e ciência é o caminho para a criação de políticas públicas que considerem os benefícios e impactos das tecnologias e, a partir daí, legislações e leis que estimulem investimentos e posicionem o Brasil como uma potência de negócios sustentáveis e circulares”.

Na opinião do Gerente Executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, a adequação do sistema tributário brasileiro é crucial para estimular o melhor uso dos recursos naturais, da mesma forma que é estratégico aproveitar o poder de compra do Estado como indutor do desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas. Bomtempo acredita na “importância de criar uma instância de governança que enderece a diversidade dos temas tratados pela agenda da Economia Circular e elabore um plano nacional, olhando de forma integrada as políticas públicas existentes”.

Nesta direção, o Presidente Executivo da ABBI, Thiago Falda, informa que um dos grandes desafios ao desenvolvimento das bioinovação está relacionado à competitividade. A inovação, em especial a disruptiva, exige grandes investimentos, dificultando a competitividade com setores tradicionais e que possuem suas tecnologias consolidadas. “Um produto que emite menos CO2 é mais caro porque exigiu uma tecnologia nova. Há um valor de desenvolvimento tecnológico embutido nele. Estímulos ao desenvolvimento e adoção dessas tecnologias é que permitirão converter as vantagens comparativas do brasil em vantagens competitivas”, explica Falda.

Ainda conforme o presidente executivo, uma série de políticas públicas podem ser elaboradas para estimular os diversos setores a investirem em soluções biotecnológicas: vantagens para a pesquisa e mecanismos de competitividade a fim de incentivar o desenvolvimento de tecnologias novas para a criação de produtos sustentáveis por meio do FNDCT; desoneração da importação de insumos e equipamentos para pesquisa que não são produzidos no Brasil; viabilização de um mercado de carbono a exemplo do RenovaBio; entre outros.

No âmbito da bioinovação, as usinas de cana-de-açúcar ilustram com clareza um ecossistema de inovação dentro do modelo de Economia Circular, embora a capacidade da cadeia ainda seja subaproveitada no país. O Brasil possui um potencial gigantesco para a produção de subprodutos a partir da cana. A vinhaça que sobra do processo de extração do açúcar e do etanol pode resultar em diversos outros produtos com valor agregado, como é caso do biogás e dos fertilizantes, e o aproveitamento do CO2 em outras indústrias, completando a circularidade. “Precisamos explorar este ecossistema, além de ampliar o conceito da bioeconomia aplicado nele para outros setores, e assim gerar empregos para a indústria nacional”, afirma o presidente da ABBI.

O alerta vermelho

O alerta vermelho do relatório sobre o clima, publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), recentemente, demonstra a urgência tanto para uma transição de matriz energética renovável como para uma nova relação econômica dos governos, empresas, cidades, países e sociedade civil. Ao que indica outro relatório da Fundação Ellen Macarthur, a Economia Circular possui papel indispensável no enfrentamento da crise climática.

Apoiado na premissa de que o combate às mudanças climáticas está focado em medidas de eficiência energética, enquanto as emissões associadas à fabricação de produtos têm sido negligenciadas, o relatório demonstra como a aplicação das estratégias da Economia Circular em apenas cinco áreas – cimento, alumínio, aço, plástico e alimentos – será capaz de eliminar quase metade das emissões provenientes da produção de mercadorias: 9,3 bilhões de toneladas de CO2, até 2050 – o equivalente a eliminar completamente as emissões atuais de todo o transporte. O fato é que a adoção da circularidade em todos os setores de produção é o desafio imposto neste tempo histórico.

Mariana Orsini informa que a Dow está na terceira geração de metas globais de sustentabilidade alinhadas aos Objetivos Sustentáveis da ONU. “Entendemos a necessidade de acelerar os esforços frente aos desafios globais e anunciamos novas metas, no ano passado, que buscam a neutralidade em carbono, até 2050, e a eliminação do plástico como resíduo, ao reinseri-los no ciclo produtivo”, acrescenta.

Ações de circularidade

Pesquisa feita pela CNI, em 2019, mostra que 76,5% das indústrias já desenvolvem alguma iniciativa de Economia Circular. Entre as principais práticas elencadas estão: otimização de processos (56,5%); uso de insumos circulares (37,1%); e recuperação de recursos (24,1%). 

Há 20 anos, a BASF apoia o Sistema Campo Limpo, um modelo circular considerado o maior programa brasileiro de logística reversa de embalagens vazias e sobras pós-consumo de defensivos agrícolas. O levantamento feito pelo inpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias), em 2019, apontou que das 45,3 mil toneladas de lixo plástico produzidas no campo, 94% foram recicladas e voltaram a ser embalagens plásticas e somente 6% passaram pela incineração ecológica. O descarte adequado evita a contaminação do solo, das águas superficiais e lençóis freáticos, além de evitar a emissão de gases geradores do efeito estufa.

Segundo Rodolfo Viana, a BASF pensa na criação dos seus produtos sob a ótica de Economia Circular, com base em três princípios: eliminação de resíduos e poluição, manutenção de produtos e materiais em uso e regeneração de sistemas naturais. Assim, possui um sistema próprio de produção de circularidade chamado “Verbund” (em tradução livre do alemão significa “composição”), que conecta as plantas de produção e tecnologias, e cria cadeias de valor eficientes: subprodutos de uma planta servem de matérias-primas para outra, com menos recursos, energia, emissões e custos logísticos e mais sinergias e produtividade.        

A Dow desenvolveu um programa de reciclagem cujo projeto-piloto beneficiou mais de 200 catadores. Desenvolvido em São Paulo, em parceria com a Boomera e a Fundación Avina, e chamado de “Reciclagem que Transforma”, o projeto recuperou cerca de 4.5 mil toneladas de materiais em 2019 – ano seguinte ao da implantação. Comparado com o cenário anterior ao projeto, houve um aumento de 35% do faturamento das cooperativas apoiadas, em média. O modelo será replicado em outros países da América Latina onde a corporação está presente.

Outro passo importante na direção da Economia Circular aconteceu em 2020, quando a empresa deu início à produção industrial da resina PCR HDPE 96032, feita totalmente a partir de plástico pós-consumo para ser incorporado em diferentes aplicações em embalagens. De acordo com Orsini, o emprego da tecnologia vai atender às metas de incorporação de conteúdo reciclado da marca, que está em torno de 25% até 2025, conforme a Fundação Ellen MacArthur.       

São inúmeras as ações empregadas pelas duas companhias. A Dow também integra o programa Latitud R, principal plataforma latino-americana para a articulação de ações, investimentos e conhecimentos em reciclagem inclusiva. Enquanto a BASF, em parceria com a Fundação Espaço ECO, lançou no ano passado o reciChain uma plataforma baseada em blockchain para escalar soluções de Economia Circular com o compartilhamento de informações dentro da cadeia de embalagens: fabricantes, fornecedores e recicladores de embalagem, além de entidades da sociedade civil e governamentais.

Para Davi Bomtempo, o conjunto de vantagens do modelo circular beneficia toda a sociedade por meio de maior inclusão social, especialmente por meio da formalização de trabalhadores, como é o caso dos catadores de recicláveis; de novas oportunidades de negócios; da redução da geração de resíduos e destinação adequada de rejeitos; da criação de produtos mais funcionais e de menor impacto ambiental; da melhoria da infraestrutura local, resultando em ambientes urbanos mais saudáveis; e da possibilidade de regeneração dos sistemas naturais. 

Os exemplos acima demonstram que, além de necessárias, iniciativas de circularidade são possíveis. Como uma entidade da sociedade civil, a ABBI atua defendendo o interesse das associadas visando o desenvolvimento da economia limpa através da bioinovação. “Fazemos a ponte entre a sociedade e as empresas com o governo, para apresentar as novas demandas e o poder público fazer parte dele”, conclui Thiago Falda. A transição para o modelo de Economia Circular é uma dessas demandas urgentes.

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