Startups e seu papel no ecossistema de bioinovação brasileiro

Por Leonardo Teixeira¹, Paulo Coutinho² e Victoria Santos³ 

A bioeconomia pode ser caracterizada por envolver um conjunto de atividades econômicas altamente diverso, perpassando setores como o químico/petroquímico, energia, alimentos & bebidas, cosméticos, papel & celulose, saúde humana & animal, dentre muitos outros. Muitos desses setores já são estabelecidos e têm encontrado na bioeconomia e no conjunto de novas tecnologias que ela aporta oportunidades para expandirem seus negócios, respondendo, ao mesmo tempo, às demandas da sociedade por melhores soluções do ponto de vista socioambiental. 

bioinovação, isto é, o ramo da ciência que emprega e/ou desenvolve processos e produtos que utilizam organismos vivos (modificados ou não) e seus derivados em atividades de interesse econômico, configura-se como uma das vertentes-chave da construção dessa bioeconomia.  

Em uma lista bastante breve, bioinovações incluem tecnologias para produção de novos plásticos e químicos industriais, novos ingredientes cosméticos, proteínas alternativas, conversão de gases de efeito estufa em produtos diversos, biorremediação, vacinas de RNA, etc.  

No entanto, se por um lado a bioinovação tende a trazer soluções disruptivas, por outro a sua concretização traz desafios tecnológicos enormes, demandando, muitas vezes, a necessidade de desenvolvimento de mercados ou modificações nas lógicas de mercados existentes. Neste sentido, as startups assumem protagonismo como focos de bioinovação, por terem um dinamismo compatível com as rápidas mudanças da bioeconomia verificadas nas últimas duas décadas e por não terem suas atividades necessariamente associadas a negócios vigentes – o que poderia restringir a amplitude das inovações buscadas. As startups tendem a se caracterizar por estruturas organizacionais enxutas, processos decisórios ágeis (muitas vezes centralizadas em um indivíduo), espírito empreendedor e disponibilidade para riscos. 

Existem inúmeros exemplos de startups surgidas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, e que assumem cada vez maior protagonismo na bioinovação. Alguns exemplos como Amyris, Genomatica, LanzaTech se tornaram referência nos mercados que atuam. Outras, mostraram-se sensíveis à competição com produtos fósseis, tendo dificuldades em escalonar suas tecnologias e/ou de estabelecer mercados para seus produtos, que levou ao encerramento de suas operações.  

O Brasil tem um papel ainda tímido quando comparado a outros países, em termos de berço de empresas de bioinovação. Segundo levantamento do site Profissão Biotec, o Brasil conta atualmente com 547 empresas em biotecnologia, sendo 161 startups. Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) mostra que, em 2016, a Espanha, os Estados Unidos e a França superavam, cada um, o número de 2 mil empresas de biotecnologia (de todos os tamanhos). 

É interessante destacar que a Espanha tinha 1.181 empresas de biotecnologia em 2008 e esse número atingiu 2,7 mil em 2016. Por essa razão, o país é considerado uma estrela emergente na comunidade de biotecnologia europeia. Esse crescimento assombroso, naturalmente muito associado às startups, explica-se por uma conjunção de fatores favoráveis, como tradição em pesquisa em determinadas regiões, promoção de eventos de networking, expansão do capital de risco para financiamento de novos negócios, estímulo à transferência de tecnologia e aceleradoras, além de investimentos públicos. 

O exemplo espanhol é relevante para ressaltar um aspecto fundamental sobre as startups: elas precisam ser suportadas por um ecossistema local de inovação que as apoie nos avanços de suas maturidades tecnológicas de laboratório para  indústria, o tão temido “Vale da Morte”. O Brasil conta com atores e iniciativas relevantes voltados às startups. A Biominas é pioneira no apoio à estruturação de negócios relacionados às áreas de ciências da vida e biotecnologia, incluindo incubação, programas de investimentos e de aceleração, eventos de matchmaking, estudos sobre o setor, formação de empreendedores, etc. A Biotechtown é um hub que investe e acelera startups de bioinovação, além de contar com infraestrutura laboratorial e piloto. O SENAI vem também se posicionando no suporte a startups. Sua Plataforma de Inovação para a Indústria conta com chamadas específicas para esse tipo de empresa, com seus Institutos SENAI de Inovação e Institutos SENAI de Tecnologia atuantes na alavancagem desses desenvolvimentos e auxiliando nas conexões com a indústria. 

Em suma, a multidisciplinaridade e o dinamismo da bioinovação são campos férteis para o surgimento de startups, e o Brasil possui capital humano, disponibilidade de recursos renováveis e patrimônio genético (por exemplo, bancos de microrganismos da biodiversidade) que o posicionam com excelente vantagem comparativa frente a outros países. As iniciativas públicas e privadas que já dispomos apontam para o fortalecimento do ecossistema brasileiro de bioinovação no médio prazo, com crescente apoio a startups. No entanto, ainda precisamos intensificar investimentos e conexões para gerar um ambiente de negócios mais favorável a esse tipo de empresa, transformando vantagens comparativas em vantagens competitivas. 

¹Leonardo Teixeira, MSc. – Pesquisador do Instituto SENAI de Inovação (ISI) em Biossintéticos e Fibras do SENAI CETIQT (RJ), atua na área de Inteligência Competitiva e Propriedade Intelectual e é doutorando da Escola de Química da UFRJ. 
²Paulo Coutinho, DSc. – Gerente do ISI em Biossintéticos e Fibras, com mais de 35 anos na indústria nas empresas Braskem e Petroflex. 
³Victoria Santos, DSc. – Coordenadora da área de Inteligência Competitiva e Propriedade Intelectual do ISI em Biossintéticos e Fibras, também coordena o Núcleo de Sustentabilidade e Economia Circular do Instituto. 

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